{"id":6742,"date":"2026-01-23T16:15:54","date_gmt":"2026-01-23T19:15:54","guid":{"rendered":"https:\/\/www.usp.br\/cje\/?p=6742"},"modified":"2026-01-23T16:15:59","modified_gmt":"2026-01-23T19:15:59","slug":"enio-moraes-junior-e-a-pedagogia-do-jornalismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cje.eca.usp.br\/?p=6742","title":{"rendered":"Enio Moraes J\u00fanior e a pedagogia do jornalismo"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8220;O que \u00e9 o amor a n\u00e3o ser o gosto de ensinar jornalismo\u201d, declamava o pesquisador e professor Enio Moraes J\u00fanior (1968-2025) durante as longas conversas na cozinha de sua resid\u00eancia. Os encontros com os amigos eram decorados por sua sabedoria e, tamb\u00e9m, pelo velho conjunto esmaltado de cor azul que continha um bule e quatro x\u00edcaras.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O caf\u00e9 era feito no coador de pano como um elixir para iniciarmos o debate sobre a pedagogia do jornalismo. Nossa discuss\u00e3o girava em torno da sala de aula que, para ele, era a simples reprodu\u00e7\u00e3o das quase extintas \u201creda\u00e7\u00f5es\u201d. Sua metodologia era caracterizada pela descoberta do talento escondido, como se n\u00e3o existissem \u201cbons ou ruins\u201d. Era como se o Enio pegasse, sutilmente, nas m\u00e3os daqueles estudantes ensinando a arte do jornalismo. Ele tinha o dom e a certeza de que poderia transform\u00e1-los em rep\u00f3rteres.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Certa vez, revelou que a turma de um curso de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o ficava \u201colhando no celular\u201d sem prestar aten\u00e7\u00e3o ao conte\u00fado da aula. Rapidamente, ele interagiu com o grupo que, em pouco tempo, come\u00e7ou a desenvolver t\u00e9cnicas de postagem sobre o uso do mobile em sala de aula. A partir dali, tornaram-se amigos dentro e fora das redes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O amor pelo ensino do jornalismo come\u00e7ou a ganhar adeptos desde o in\u00edcio da sua jornada, passando pela defesa da tese de doutorado no Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Ci\u00eancias da Comunica\u00e7\u00e3o da Escola de Comunica\u00e7\u00f5es e Artes da Universidade de S\u00e3o Paulo, at\u00e9 a consolida\u00e7\u00e3o como professor de jornalismo. A Universidade Federal de Sergipe (UFS) assim resumiu sua passagem pela institui\u00e7\u00e3o entre 1995 e 2002: \u201cEnio foi um dedicado professor, profissional competente, am\u00e1vel e muito estimado pelo corpo docente e discente, com atua\u00e7\u00e3o fundamental nos primeiros anos de estrutura\u00e7\u00e3o e reconhecimento dos cursos do Departamento de Comunica\u00e7\u00e3o da UFS\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Seu orientador no mestrado e no doutorado foi Jos\u00e9 Coelho Sobrinho, um dos pioneiros do curso de Jornalismo na USP, a quem Enio admirava por estimul\u00e1-lo a pr\u00e1ticas como a que est\u00e1 descrita na tese de livre-doc\u00eancia <em>Do que somos capazes!: relato de uma experi\u00eancia pedag\u00f3gica<\/em>, defendida por Sobrinho em 2011, na Escola de Comunica\u00e7\u00f5es e Artes da USP.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sua milit\u00e2ncia pela sala de aula foi muito al\u00e9m da t\u00e9cnica e da tecnologia, porque evidencia o compromisso com o interesse p\u00fablico e a cidadania, fundamentos basilares da chamada Escola Ecana de Jornalismo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O resultado de suas pesquisas est\u00e1 no livro <em>Forma\u00e7\u00e3o de Jornalistas: elementos para uma pedagogia de ensino do interesse p\u00fablico<\/em>. Logo ap\u00f3s essa publica\u00e7\u00e3o, o autor concedeu uma entrevista que foi publicada na revista <em>Comunica\u00e7\u00e3o, Cultura e Sociedade<\/em>, em 2011. Em uma das perguntas, Enio foi questionado sobre o que procurava transmitir aos seus alunos. A resposta resume o pensamento de um dos \u00faltimos pesquisadores que viam a sala de aula n\u00e3o apenas como um laborat\u00f3rio, mas tamb\u00e9m como um espa\u00e7o para o desenvolvimento da reda\u00e7\u00e3o e do estilo sem a necessidade de manuais:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cSer professor n\u00e3o \u00e9 simplesmente estar com os alunos, todos os dias, em sala de aula. \u00c9 \u2018encontrar-se\u2019 com cada um, um \u2018encontro\u2019 assim mesmo, entre aspas. Isso \u00e9 que deveria ser a verdadeira educa\u00e7\u00e3o. Vinicius de Moraes dizia que, ao longo da vida, a gente n\u00e3o faz amigos, mas a gente os reconhece. Parodiando-o, eu diria que o professor tem que aprender a reconhecer seu aluno, perceber que com o aluno a gente n\u00e3o est\u00e1, a gente \u2018se encontra\u2019 em um espa\u00e7o onde h\u00e1 quase que um acordo pressuposto, pr\u00e9-estabelecido, de boa vontade. E esse acordo pressup\u00f5e que o trabalho do professor n\u00e3o \u00e9 ensinar, mas oferecer ao aluno elementos para que ele seja capaz de aprender e de amadurecer para a vida. No meu caso, procuro transmitir aos meus alunos seguran\u00e7a para enfrentar os desafios da profiss\u00e3o e at\u00e9 mesmo da vida. H\u00e1 algumas m\u00e1ximas que costumo usar em sala de aula. Uma delas, que costumo repetir nos primeiros encontros, \u00e9 que n\u00e3o estou ali para dar respostas, mas para provocar perguntas que eles mesmos ter\u00e3o que responder e para as quais eu procurarei apenas mostrar caminhos. Acho que o professor tem que ser um mobilizador astucioso que \u2018encontra-se\u2019 com o aluno que est\u00e1 \u00e0 sua frente e lhe fornece instrumentos para que ele, eventualmente, seja o melhor agente poss\u00edvel em favor dos seres humanos. Nesse sentido, o que eu mais procuro transmitir aos meus alunos \u00e9 um sentimento de seguran\u00e7a e bem-estar diante de um mundo em que nada est\u00e1 pronto e em que tudo est\u00e1 e estar\u00e1, sempre, por fazer, e que parte desse fazer est\u00e1 nas m\u00e3os deles\u201d.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sua \u00faltima luta era contra o levante proclamado por pol\u00edticas xenof\u00f3bicas. Em uma parceria com o Centro de Estudos Latino-Americanos sobre Cultura e Comunica\u00e7\u00e3o (CELACC), ele reuniu jornalistas que abordaram a quest\u00e3o no livro <em>Remolinos: hist\u00f3rias de migrantes latino-americanos na Europa, nos Estados Unidos e no Canad\u00e1<\/em>. Uma dos autores do livro, Daniel Ladeira, assim resumiu a morte de Enio Moraes J\u00fanior no \u00faltimo dia 27 de dezembro de 2025, em Berlim, na Alemanha:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cHoje, para al\u00e9m de perder um amigo t\u00e3o querido, eu escolho celebrar a vida dele. Enio foi vida pura. Um ser humano cheio de hist\u00f3rias, transbordando amor e afeto. Ele era verdadeiramente uma pessoa rara: dono de um olhar sens\u00edvel e de uma capacidade \u00fanica de encarar tudo com humor e leveza. Ele era o tipo de amigo que desafiava o tempo. Podiam se passar 5, 10, 15\u2026 30 anos. N\u00e3o importava a dist\u00e2ncia ou o tempo, a amizade continua exatamente a mesma, com a mesma intimidade e carinho. Meu amado amigo Enio, onde quer que voc\u00ea esteja agora, que seja leve e divertido, exatamente como voc\u00ea\u201d.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Ser professor de Jornalismo<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 imposs\u00edvel esquecer as palavras, o profissionalismo, a solidariedade, o amor pela vida e pela profiss\u00e3o que Enio assumiu com tanta dedica\u00e7\u00e3o e presteza. Deixa uma marca indel\u00e9vel como ser humano que tinha grandes preocupa\u00e7\u00f5es com o mundo, com as pessoas e, sobretudo, acreditava que cada pequeno gesto podia transformar a realidade ao seu redor para que fosse mais justa e humana para todos. Essa preocupa\u00e7\u00e3o se traduzia em gestos que iluminavam os caminhos daqueles que conviviam com ele, como a irm\u00e3 Enny Vieira Moraes, docente na Universidade do Estado da Bahia (Uneb):<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cUm homem incr\u00edvel, um ser humano espetacular que, al\u00e9m de tudo, sempre buscou manter todos ao seu redor sempre com cuidado e atento \u00e0s especificidades e necessidades de todos n\u00f3s. Com tanta humanidade que lhe \u00e9 peculiar, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel ignorar tantos amigos que voc\u00ea fez por diversas partes do mundo, e que procurou cuidar, regando e preservando essas amizades, como a cuidar de plantinhas sens\u00edveis que foram se fortalecendo com o tempo, assim como fez com a nossa amizade que, posteriormente, se fortaleceu como uma \u00e1rvore forte e robusta\u201d.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E era assim tamb\u00e9m na doc\u00eancia, que abra\u00e7ou de forma t\u00e3o intensa, fazendo da sala de aula um espa\u00e7o vivo de transforma\u00e7\u00e3o, onde o conhecimento caminhava junto com a sensibilidade, o pensamento cr\u00edtico e o cuidado com o indiv\u00edduo, formando n\u00e3o apenas jornalistas, mas pessoas mais conscientes do mundo que habitam. Quando lecionou no curso de Jornalismo da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), seu \u00faltimo trabalho como docente, logo superou as expectativas da coordena\u00e7\u00e3o. Foi um grande mestre que caminhou pela academia com generosidade e humildade entre seus pares e distante das disputas e das vaidades. Sempre foi fiel ao compromisso com o conhecimento e com a doc\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sua rela\u00e7\u00e3o com os estudantes era especialmente fraterna e se revelava nos pequenos gestos do cotidiano. Escutava com aten\u00e7\u00e3o, ensinava com paci\u00eancia e acreditava profundamente no potencial de cada um. Mais do que transmitir conte\u00fados, dialogava, constru\u00eda v\u00ednculos, despertava confian\u00e7a e incentivava o pensamento cr\u00edtico, criando um ambiente em que aprender era tamb\u00e9m um exerc\u00edcio de humanidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os alunos reconheciam naquele mestre n\u00e3o apenas um professor, mas uma refer\u00eancia \u00e9tica e afetiva. Sua presen\u00e7a inspirava, suas palavras encorajavam e seu compromisso com o outro deixava marcas duradouras. Assim, o aprendizado ultrapassava os limites da sala de aula e se transformava em experi\u00eancia de vida, capaz de acompanhar cada estudante muito depois do tempo da escola.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Enio constru\u00eda v\u00ednculos por onde passava e, por isso, essa rela\u00e7\u00e3o que criou junto com as pessoas ao longo dos anos estar\u00e1 sempre presente. Dif\u00edcil escrever sobre uma pessoa amada e admirada neste momento em que sua luz reflete em outro plano. O que nos consola \u00e9 que Enio j\u00e1 brilhava aqui na Terra.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Logo, quando entrarmos em sala de aula para \u201censinar \u201c, tenha certeza que faremos de tudo para formar jornalistas, sem medo de abrir caminhos, assim como voc\u00ea fez na USP, na ESPM, na UFS e nos lugares por onde passou.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>* Por Luciano Victor Barros Maluly, professor da Escola de Comunica\u00e7\u00f5es e Artes (ECA) da USP, e Maria Elisabete Antonioli, pesquisadora do Grupo de Pesquisa de Jornalismo Popular e Alternativo da ECA-USP<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>FONTE<\/strong>: Jornal da USP. Dispon\u00edvel em: https:\/\/jornal.usp.br\/artigos\/enio-moraes-junior-e-a-pedagogia-do-jornalismo\/<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li>\u00a0<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;O que \u00e9 o amor a n\u00e3o ser o gosto de ensinar jornalismo\u201d, declamava o pesquisador e professor Enio Moraes<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":6743,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"colormag_page_container_layout":"default_layout","colormag_page_sidebar_layout":"default_layout","footnotes":""},"categories":[155,154,3],"tags":[466],"class_list":["post-6742","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos","category-jornal-da-usp","category-noticias","tag-enio-moraes-junior-2"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/cje.eca.usp.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/6742","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/cje.eca.usp.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/cje.eca.usp.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cje.eca.usp.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cje.eca.usp.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=6742"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/cje.eca.usp.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/6742\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6744,"href":"https:\/\/cje.eca.usp.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/6742\/revisions\/6744"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cje.eca.usp.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/6743"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/cje.eca.usp.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=6742"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/cje.eca.usp.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=6742"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/cje.eca.usp.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=6742"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}