{"id":5879,"date":"2024-05-04T19:42:14","date_gmt":"2024-05-04T22:42:14","guid":{"rendered":"https:\/\/www.usp.br\/cje\/?p=5879"},"modified":"2024-05-05T00:18:21","modified_gmt":"2024-05-05T03:18:21","slug":"leia-o-artigo-o-que-e-docolonialismo-do-professor-alexandre-barbosa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cje.eca.usp.br\/?p=5879","title":{"rendered":"Leia o artigo &#8220;O que \u00e9 decolonialismo?&#8221; do professor Alexandre Barbosa"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\"><strong>O QUE \u00c9 DECOLONIALISMO?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O termo decolonialismo \u2014 ou decolonialidade \u2014 significa o conjunto de pr\u00e1ticas, conceitos, pesquisas e estudos que tentam diminuir, e at\u00e9 reverter, os efeitos da coloniza\u00e7\u00e3o nas sociedades em que este processo hist\u00f3rico ocorreu.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Decolonialismo \u00e9 diferente de descoloniza\u00e7\u00e3o. Enquanto a descoloniza\u00e7\u00e3o se refere \u00e0s lutas das col\u00f4nias africanas, asi\u00e1ticas e latino-americanas para se tornarem independentes das respectivas metr\u00f3poles, o decolonialismo tem como princ\u00edpio que a independ\u00eancia pol\u00edtica n\u00e3o acabou com institui\u00e7\u00f5es, h\u00e1bitos e pr\u00e1ticas coloniais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A partir dos estudos decoloniais entende-se que, mesmo ap\u00f3s a independ\u00eancia pol\u00edtica, as na\u00e7\u00f5es continuam sofrendo com as feridas provocadas pelos s\u00e9culos de colonialismo, como:<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li>machismo;<\/li>\n\n\n\n<li>racismo;<\/li>\n\n\n\n<li>clientelismo (acesso aos bens e prote\u00e7\u00e3o do Estado apenas para privilegiados pol\u00edticos);<\/li>\n\n\n\n<li>uso da viol\u00eancia como m\u00e9todo de resolu\u00e7\u00e3o de conflitos e aplica\u00e7\u00e3o do aparato repressivo contra as popula\u00e7\u00f5es mais pobres e n\u00e3o-brancas;<\/li>\n\n\n\n<li>a perman\u00eancia de latif\u00fandios (ou resist\u00eancia a implantar reforma agr\u00e1ria);<\/li>\n\n\n\n<li>depend\u00eancia econ\u00f4mica: os pa\u00edses est\u00e3o posicionados na engrenagem econ\u00f4mica internacional como na\u00e7\u00f5es prim\u00e1rio-exportadoras e importadoras de bens com valor agregado. Ou seja exportam produtos agropecu\u00e1rios e minerais e s\u00e3o importadores de itens industrializados com maior tecnologia;<\/li>\n\n\n\n<li>depend\u00eancias cultural e acad\u00eamica: apesar da rica cultura popular aut\u00f3ctone, a coloniza\u00e7\u00e3o mant\u00e9m a l\u00f3gica da valoriza\u00e7\u00e3o das culturas dos pa\u00edses centrais do capitalismo, principalmente europeus e norte-americanos e menosprezo e preconceito com a cultura local.\u00a0<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Portanto, dizer que uma pr\u00e1tica ou estudo \u00e9 decolonial significa se posicionar &#8211; e tamb\u00e9m atuar &#8211; em oposi\u00e7\u00e3o a essas feridas coloniais:<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li>promover pr\u00e1ticas antirracistas e combater o machismo e o racismo em todas as estruturas \u2014 da linguagem aos centros de poder;\u00a0<\/li>\n\n\n\n<li>lutar por pol\u00edticas p\u00fablicas que promovam a inclus\u00e3o de todos os setores da sociedade;\u00a0<\/li>\n\n\n\n<li>promover pol\u00edticas p\u00fablicas que revertam o uso da viol\u00eancia como coer\u00e7\u00e3o e resolu\u00e7\u00e3o de conflitos;\u00a0<\/li>\n\n\n\n<li>defender a reforma agr\u00e1ria, o uso adequado dos espa\u00e7os urbanos, a preserva\u00e7\u00e3o ambiental e dos povos origin\u00e1rios e quilombolas;\u00a0<\/li>\n\n\n\n<li>defender a\u00e7\u00f5es de emancipa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica para al\u00e9m da economia prim\u00e1rio-exportadora, sempre respeitando a sustentabilidade;\u00a0<\/li>\n\n\n\n<li>lutar pela valoriza\u00e7\u00e3o da cultura popular, lembrando que essas manifesta\u00e7\u00f5es s\u00e3o sempre vivas e, nessa categoria, est\u00e3o inclu\u00eddas tanto a cultura ligada \u00e0s tradi\u00e7\u00f5es populares quanto as que surgem nos centros urbanos.<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Importante notar que essas pautas s\u00e3o hist\u00f3ricas das lutas sociais da Am\u00e9rica Latina, \u00c1sia e \u00c1frica desde o s\u00e9culo XIX. O que comprova que o decolonialismo n\u00e3o \u00e9 um modismo pensado na academia, mas a sistematiza\u00e7\u00e3o de lutas centen\u00e1rias das classes populares e dos povos que passaram pelos crimes cometidos durante a coloniza\u00e7\u00e3o, como a escravid\u00e3o e a repress\u00e3o \u00e0s tentativas de emancipa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A partir dessa vis\u00e3o de reverter as depend\u00eancias cultural e acad\u00eamica, os estudos decoloniais se expandiram para diferentes \u00e1reas do conhecimento com o objetivo de promover e apoiar a\u00e7\u00f5es que revertam a colonialidade do saber, ou seja, que apresentem outras refer\u00eancias art\u00edsticas, est\u00e9ticas e acad\u00eamicas para al\u00e9m das habituais refer\u00eancias europ\u00e9ias e norte-americanas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Aqui, na Am\u00e9rica Latina, promover a decoloniza\u00e7\u00e3o do saber \u00e9 a principal caracter\u00edstica do decolonialismo: conceber um novo mundo al\u00e9m dos &nbsp;limites impostos pelo colonialismo na Pedagogia, nas Ci\u00eancias Sociais e nas Ci\u00eancias Sociais Aplicadas, como o campo da comunica\u00e7\u00e3o. Como afirma a pesquisadora Catherine Walsh: decolonialismo \u00e9 o \u201cinteresse em articular, desde a Am\u00e9rica Latina, projetos intelectuais e pol\u00edticos que debatam pensamentos cr\u00edticos com o objetivo de pensar fora dos limites definidos pelo colonialismo, e com o prop\u00f3sito de construir mundos e caminhos diferentes de pensar e de ser\u201d\u00b9.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Decolonialismo na comunica\u00e7\u00e3o<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para compreender o que significa decolonizar a comunica\u00e7\u00e3o, fa\u00e7a os seguintes exerc\u00edcios:<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li>quantas refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas de autoras e autores da Am\u00e9rica Latina constam nos programas de suas disciplinas?;<\/li>\n\n\n\n<li>como est\u00e1 a diversidade \u00e9tnica e de g\u00eanero entre as e os docentes dos cursos?;<\/li>\n\n\n\n<li>como a Am\u00e9rica Latina \u00e9 retratada nos meios de comunica\u00e7\u00e3o?<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As respostas a essas perguntas v\u00e3o demandar pr\u00e1ticas e a\u00e7\u00f5es decoloniais. Decolonizar o saber e o fazer na comunica\u00e7\u00e3o, passa por:<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li>incorporar refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas (autoras, autores e escolas de pensamento) latino-americanas;<\/li>\n\n\n\n<li>adotar crit\u00e9rios latino-americanos de sele\u00e7\u00e3o e constru\u00e7\u00e3o de not\u00edcias;<\/li>\n\n\n\n<li>promover a\u00e7\u00f5es comunicacionais que se identifiquem com a diversidade latino-americana, ou seja, pr\u00e1ticas comunicacionais que gerem identidade com os povos origin\u00e1rios, com os de matriz africana, que n\u00e3o reverberam o machismo ao tamb\u00e9m incluir as perspectivas femininas e LGBTQIA+.<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Assim como as demais pautas, os ideais de decolonialismo nas artes e na comunica\u00e7\u00e3o estavam presentes h\u00e1 tempos na Am\u00e9rica Latina. Em 1935, por exemplo, &nbsp;o uruguaio Joaqu\u00edn Torres Garcia prop\u00f5e a \u201cEscuela del Sur\u201d e sugere que a Am\u00e9rica Latina reverta sua depend\u00eancia cultural das refer\u00eancias est\u00e9ticas europeias e que passe a valorizar a arte ind\u00edgena. Nas palavras de Torres Garc\u00eda, ao inverter o mapa da Am\u00e9rica Latina, com a ponta voltada para cima, ele sugere que nosso norte, nossa b\u00fassola, passe a ser a Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Apesar de terem ganhado for\u00e7a e sistematiza\u00e7\u00e3o nas pesquisas acad\u00eamicas nas \u00faltimas d\u00e9cadas, o que hoje se entende por decolonialidade est\u00e1 presente nas ideias de autores latino-americanos desde o s\u00e9culo XIX. A lista \u00e9 t\u00e3o grande quanto a diversidade latino-americana. Com o risco de ser injusta, como s\u00e3o as listas, mas para oferecer refer\u00eancias para leituras nos diversos campos do pensamento decolonial podem ser destacados:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O cubano Jos\u00e9 Mart\u00ed (1853-1895), considerado um sucessor dos ideais de Sim\u00f3n Bol\u00edvar, entendia que a integra\u00e7\u00e3o latino-americana era a resposta necess\u00e1ria ao que ele j\u00e1 enxergava como imperialismo norte-americano.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Aim\u00e9 C\u00e9saire (1913-2008), da Martinica, autor de <strong>Discurso sobre o colonialismo<\/strong>, uma das obras mais importantes para entender a rela\u00e7\u00e3o entre colonialismo e racismo. Este livro inspirou os movimentos pan-africanos, os Panteras Negras e \u00e9 citado v\u00e1rias vezes por Frantz Fanon.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tamb\u00e9m nascido na Martinica, Frantz Fanon (1925-1961) \u00e9 um dos principais intelectuais a explicar e tamb\u00e9m a lutar contra as consequ\u00eancias e mazelas do colonialismo. Fanon fez parte da Frente de Liberta\u00e7\u00e3o Nacional da Arg\u00e9lia. O livro <strong>Os condenados da terra<\/strong>, que tem pref\u00e1cio de Sartre, descreve, de maneira impressionante, como s\u00e3o os territ\u00f3rios marcados pelo colonialismo, seja na \u00c1frica, \u00c1sia ou Am\u00e9rica Latina e mostra como racismo marca as v\u00edtimas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O peruano An\u00edbal Quijano (1930-2018) \u00e9 um dos mais conhecidos te\u00f3ricos do decolonialismo, ao definir o termo \u201ccolonialidade do poder\u201d que critica o eurocentrismo e valoriza a cultura do chamado \u201cSul Global\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A brasileira L\u00e9lia Gonzalez (1935-1994), uma das mais importantes intelectuais brasileiras, cunhou o termo amefricanidade, refer\u00eancia dos estudos do feminismo negro na Am\u00e9rica Latina.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A argentina Rita Segato (1951) al\u00e9m de publicar diversas obras sobre feminismo e viol\u00eancia contra mulheres, tem v\u00e1rias a\u00e7\u00f5es nesta luta: \u00e9 uma das co-autoras da &nbsp;proposta de cotas para estudantes negros e ind\u00edgenas na educa\u00e7\u00e3o superior brasileira e foi perita no julgamento da Guatemala, no qual foram condenados integrantes do ex\u00e9rcito por delitos de escravid\u00e3o sexual e dom\u00e9stica contra mulheres maias da etnia g\u2019egchi.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A norte-americana, radicada no Equador, Catherine Walsh (1964) \u00e9 uma das mais citadas autoras da decolonialidade. Catherine Walsh atua h\u00e1 muitos anos nas lutas por justi\u00e7a e transforma\u00e7\u00e3o social, desde que trabalhou com Paulo Freire at\u00e9 a atual trajet\u00f3ria de apoio e engajamento em movimentos ind\u00edgenas e afrodescendentes. Como \u00e9 t\u00edpico da intelectualidade latino-americana, al\u00e9m das cr\u00edticas \u00e0 colonialidade, ela tamb\u00e9m se dedica \u00e0s pr\u00e1ticas para decolonizar os saberes, principalmente na Pedagogia. &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O argentino Walter Mignolo (1941), uma das figuras centrais do decolonialismo, contribui muito para entender a Am\u00e9rica Latina com v\u00e1rios livros e artigos sobre colonialidade global e geopol\u00edtica do conhecimento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">* Alexandre Barbosa \u00e9 professor do Departamento de Jornalismo e Editora\u00e7\u00e3o da ECA-USP<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">OBS: Artigo reproduzido do Boletim ECA NOT\u00cdCIAS 574 com autoriza\u00e7\u00e3o do autor:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a href=\"https:\/\/www.eca.usp.br\/noticias\/o-que-e-decolonialismo-por-alexandre-barbosa\">https:\/\/www.eca.usp.br\/noticias\/o-que-e-decolonialismo-por-alexandre-barbosa<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O QUE \u00c9 DECOLONIALISMO? 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