{"id":5307,"date":"2023-07-22T16:24:18","date_gmt":"2023-07-22T19:24:18","guid":{"rendered":"https:\/\/cje.webhostusp.sti.usp.br\/?p=5307"},"modified":"2023-07-22T16:24:18","modified_gmt":"2023-07-22T19:24:18","slug":"cenas-para-nao-esquecer-historias-que-nao-podem-ser-esquecidas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cje.eca.usp.br\/?p=5307","title":{"rendered":"Cenas para n\u00e3o esquecer: hist\u00f3rias que n\u00e3o podem ser esquecidas"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/cje.webhostusp.sti.usp.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/image-13.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-5308\" width=\"583\" height=\"415\" srcset=\"https:\/\/cje.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/image-13.png 583w, https:\/\/cje.eca.usp.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/image-13-300x214.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 583px) 100vw, 583px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size wp-block-paragraph\">Filipe Alessandro de Lima Moraes<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size wp-block-paragraph\">Julia do Nascimento Martins<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size wp-block-paragraph\">J\u00falia de Queiroz Prazeres<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size wp-block-paragraph\">Rebeca de Souza<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size wp-block-paragraph\">Tain\u00e1 Rodrigues da Silva<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A pe\u00e7a \u201cCenas para n\u00e3o esquecer\u201d, dirigida por Luiz Fernando Marques, foi apresentada pela Turma 72 da Escola de Arte Dram\u00e1tica da USP. Com o uso de recursos tecnol\u00f3gicos e jogos de luzes, os ambientes constru\u00eddos contribu\u00edram para a interatividade e conex\u00e3o entre os atores e o p\u00fablico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Segundo a atriz Sandy Andrade, em <a href=\"https:\/\/drive.google.com\/drive\/folders\/1J8AUraITkRNvPB520QXfrxO5jCzzGMur?usp=sharing\">entrevista<\/a>, a cria\u00e7\u00e3o da pe\u00e7a foi inspirada no filme \u201cHiroshima, Meu Amor\u201d (1959), que retrata a bomba at\u00f4mica que atingiu a cidade japonesa de Hiroshima. O diretor instigou os atores a explorarem suas \u201cbombas pessoais\u201d no palco e ao longo de duas horas e meia, foram abordados temas latentes na sociedade contempor\u00e2nea, como a aceita\u00e7\u00e3o de corpos e de sexualidade, o machismo, o racismo, a xenofobia e a desconstru\u00e7\u00e3o de estere\u00f3tipos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O foco de toda a pe\u00e7a \u00e9 a mem\u00f3ria, trabalhada a partir da conta\u00e7\u00e3o de hist\u00f3rias, que s\u00e3o resgatadas por meio das lembran\u00e7as do elenco e pelas refer\u00eancias a obras do cinema com o uso de tecnologia para a imers\u00e3o em novos ambientes.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>O meio \u00e9 a mensagem<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A pe\u00e7a rompe com o tradicional. No in\u00edcio, os espectadores ocupam o palco enquanto os atores se sentam na plat\u00e9ia e cenas do filme \u201cHiroshima, Meu Amor\u201d s\u00e3o exibidas por um projetor de imagens. A apresenta\u00e7\u00e3o foi um exemplo vivo da teoria de Marshall McLuhan, de que os meios s\u00e3o capazes de criar novos ambientes e influenciar nos sentimentos e sensa\u00e7\u00f5es humanas.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh5.googleusercontent.com\/qDch600KprRLV6UdinRqgXb1jS8WBGU04NCoKmU-gM-2wuKf1tT3N8jrTaeI4VxFVx2HkTITcg9dSK73cLLYXj-w4m3SUpYJ738b-I-cs0DFfkS3FrrRu6hJhqZxP65xr7rAmgt-5b7xNaUrjfQJ1W8\" alt=\"\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Durante toda a apresenta\u00e7\u00e3o, aparatos tecnol\u00f3gicos foram utilizados para a imers\u00e3o total do p\u00fablico [Imagem: Reprodu\u00e7\u00e3o\/Instagram @turma72ead]<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tamb\u00e9m pode-se aplicar os princ\u00edpios do jornalismo de Otto Groth. As entrevistas autobiogr\u00e1ficas dos atores apresentaram outros pontos de vista poss\u00edveis pela difus\u00e3o coletiva, que permeia as diferentes camadas sociais. Ocorreu uma interdisciplinaridade de temas que despertam a empatia do receptor, onde se criaram conex\u00f5es e significados.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A pe\u00e7a pode ser comparada a uni\u00e3o de cr\u00f4nicas argumentativas. Este g\u00eanero retrata o cotidiano, expandindo-se para a de defesa de uma \u201cvis\u00e3o de mundo\u201d presente na sua forma de express\u00e3o. Para isso, faz uso do humor, da ironia e temas pol\u00eamicos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Com refer\u00eancias ao filme \u201cKill Bill\u201d (2003), os personagens trouxeram \u00e0 tona a quest\u00e3o dos corpos n\u00e3o-brancos, especificamente os amarelos, e o processo de reconhecimento, aceita\u00e7\u00e3o e luta pela exist\u00eancia. A personagem de origem asi\u00e1tica n\u00e3o tinha sua brasilidade reconhecida pela personagem branca e elas entraram em combate. De forma simb\u00f3lica, a opressora foi esfacelada pela oprimida em nome da aceita\u00e7\u00e3o da diversidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A cultura negra foi resgatada pelas m\u00fasicas, instrumentos musicais, vestimentas e dan\u00e7as e a exibi\u00e7\u00e3o de imagens nas paredes escuras da sala de mulheres negras, como as escritoras Carolina Maria de Jesus e Angela Davis, a atriz Zez\u00e9 Motta, e a cantora Beyonc\u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De forma intimista e delicada, foi abordado o car\u00e1ter opressor das for\u00e7as armadas do Estado em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 popula\u00e7\u00e3o negra. Com o uso de sons e cores das sirenes da pol\u00edcia, um dos personagens, um jovem negro, parece ser perseguido dentro da universidade enquanto se dirige ao encontro de seus amigos para ensaiar as cenas finais de uma pe\u00e7a.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Cabe destacar a proximidade dessa abordagem com a teoria de Hans Magnus Enzensberger, pertencente \u00e0 Nova Esquerda Alem\u00e3. Segundo eles, os meios de comunica\u00e7\u00e3o possuem um potencial emancipador da consci\u00eancia das massas, pois \u00e9 poss\u00edvel moldar a vis\u00e3o de mundo delas de formas diferentes do tradicional. Dessa forma, a pe\u00e7a adquire um car\u00e1ter de \u201cdespertar\u201d o p\u00fablico para os problemas sociais.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>E a mensagem \u00e9 resist\u00eancia<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh3.googleusercontent.com\/46oXWMGbtDzT6DTWfJMjIPaeqhh6p6LealfyXjhOZbkaUa_joGGNgiPpAI0kbgRB47U7ibwjUk2wbe_SHO6DI_Qo1MIplc7T6TrkJ3UTtKHKyXt7ONdIYIOkx1Qc-liRZQ5qBWYEnCeESxAeD1hLk7Y\" alt=\"\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em determinada cena, dois atores conversam sobre seus processos de autodescoberta e aceita\u00e7\u00e3o [Imagem: Reprodu\u00e7\u00e3o\/Instagram @pereirainmichel]<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em uma das cenas exibidas, uma dupla de int\u00e9rpretes percorreu o palco com guarda-chuvas coloridos e uma faixa que cobre os olhos. A faixa carregava um espelho posicionado na dire\u00e7\u00e3o da plateia. \u201cVoc\u00ea j\u00e1 fez as pazes com o seu corpo?\u201d, foi a pergunta feita por eles para o p\u00fablico. O processo de descoberta \u00e9 entendido como doloroso e cercado pelos estigmas sociais, mas de extrema import\u00e2ncia para a sobreviv\u00eancia em uma sociedade que prega a extin\u00e7\u00e3o daqueles que n\u00e3o se encaixam nos padr\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ainda na perspectiva de aceita\u00e7\u00e3o, tr\u00eas atrizes fizeram uma par\u00f3dia do desenho \u201cAs Meninas Superpoderosas\u201d e abordaram os aspectos negativos de suas vidas ap\u00f3s os 30 anos, como a solid\u00e3o, o afastamento da sociedade e a viol\u00eancia masculina. Essa vis\u00e3o deturpada sobre o corpo feminino e o processo de envelhecimento encontra embasamento no sistema capitalista, que considera o indiv\u00edduo como \u00fatil at\u00e9 uma certa idade. Ap\u00f3s isso, ele pode ser descartado e sua exist\u00eancia, suprimida. Al\u00e9m disso, existe a influ\u00eancia do colonialismo europeu, no qual a mulher tinha apenas fins reprodutivos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por\u00e9m, no final da cena, as tr\u00eas \u201cn\u00e3o t\u00e3o poderosas\u201d percebem que a vida delas ainda n\u00e3o est\u00e1 no fim e que n\u00e3o h\u00e1 necessidade de pressa, elas podem parar de correr. Mesmo com a opress\u00e3o do sistema econ\u00f4mico e da sociedade, elas escolhem resistir.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Conclus\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh6.googleusercontent.com\/u5GMZxvwB9JF5U1zY48oHepm8fZez92SX8fnf4WvNm7187X1k1pYT7KgyI-o93xA5jBNYESdbrLlTN1-Wpu-fkIwD8CDe5I9Z2JLOOXBn4tO3AK7pt2xUXzTfToQKUF7deOFRsfnSxvAqQbEjBoUFk4\" alt=\"\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No final da apresenta\u00e7\u00e3o, o personagem que estava perdido finalmente encontra o caminho de volta [Imagem: Rebeca de Souza]<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na perspectiva do te\u00f3rico da comunica\u00e7\u00e3o boliviano Luis Ramiro Beltr\u00e1n, as pol\u00edticas de comunica\u00e7\u00e3o devem ser pluralistas e todos os fatores sociais devem participar igualmente do processo. \u201cCenas para n\u00e3o esquecer\u201d tem exatamente esta proposta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por meio de cenas difusas e que, inicialmente, parecem n\u00e3o ter uma rela\u00e7\u00e3o l\u00f3gica ou cronol\u00f3gica, os atores se lembram. Eles se lembram das opress\u00f5es que sofreram, das palavras duras que ouviram, da dor dos pr\u00f3prios questionamentos. Se lembram das incertezas, se seriam capazes de resistir ou, simplesmente, de existir.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A cria\u00e7\u00e3o de novos ambientes com os aparelhos tecnol\u00f3gicos, como celulares, telas e projetores, possibilitou uma intertextualidade valiosa com obras cinematogr\u00e1ficas consagradas e uma imers\u00e3o completa do p\u00fablico. Esta combina\u00e7\u00e3o foi essencial para que a plateia fosse atingida pela atua\u00e7\u00e3o profunda do elenco da pe\u00e7a e fosse capaz de refletir sobre suas pr\u00f3prias bombas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">HOHLFELDT, A. C. Glosando a obra pioneira de Hans Magnus Enzensberger. Revista Observat\u00f3rio, [S. l.], v. 4, n. 3, p. 726\u2013758, 2018. DOI: 10.20873\/uft.2447-4266.2018v4n3p726. Dispon\u00edvel em: &lt;https:\/\/sistemas.uft.edu.br\/periodicos\/index.php\/observatorio\/article\/view\/4708&gt;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">REN\u00d3, Denis Porto. O latino-americano Luis Ramiro Beltr\u00e1n e as suas pol\u00edticas nacionais de comunica\u00e7\u00e3o de massa. Biblioteca on-line de ci\u00eancias da comunica\u00e7\u00e3o, 2007. Dispon\u00edvel em: &lt;https:\/\/www.bocc.ubi.pt\/pag\/reno-denis-latino-americano-luis-ramiro-beltran.pdf&gt;.&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Filipe Alessandro de Lima Moraes Julia do Nascimento Martins J\u00falia de Queiroz Prazeres Rebeca de Souza Tain\u00e1 Rodrigues da Silva<\/p>\n","protected":false},"author":7,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"colormag_page_container_layout":"default_layout","colormag_page_sidebar_layout":"default_layout","footnotes":""},"categories":[328],"tags":[],"class_list":["post-5307","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-sala39"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/cje.eca.usp.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/5307","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/cje.eca.usp.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/cje.eca.usp.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cje.eca.usp.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/7"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cje.eca.usp.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=5307"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/cje.eca.usp.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/5307\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5309,"href":"https:\/\/cje.eca.usp.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/5307\/revisions\/5309"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/cje.eca.usp.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=5307"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/cje.eca.usp.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=5307"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/cje.eca.usp.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=5307"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}