{"id":4746,"date":"2023-02-06T18:06:11","date_gmt":"2023-02-06T21:06:11","guid":{"rendered":"https:\/\/cje.webhostusp.sti.usp.br\/?p=4746"},"modified":"2023-03-23T16:42:08","modified_gmt":"2023-03-23T19:42:08","slug":"gloria-maria-o-jornalismo-desencarnado-da-realidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cje.eca.usp.br\/?p=4746","title":{"rendered":"Gloria Maria, o jornalismo desencarnado da realidade"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dennis de Oliveira<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A jornalista Gloria Maria, da Rede Globo, faleceu em 2 de fevereiro (dia de Iemanj\u00e1)<br>deste ano aos 73 anos. Ela era filha de um alfaiate, estudou em escolas p\u00fablicas,<br>dominava v\u00e1rios idiomas como ingl\u00eas, franc\u00eas e o latim, formou-se em jornalismo pela<br>PUC-RJ momento em que conciliava os estudos com o trabalho como telefonista em<br>empresa de telecomunica\u00e7\u00f5es. Entrou na Globo em 1970 como \u201cr\u00e1dio escuta\u201d, tipo de<br>trabalho comum na \u00e9poca para quem pretendia ingressar na carreira de jornalismo em<br>que a pessoa fica monitorando informa\u00e7\u00f5es do r\u00e1dio para subsidiar a elabora\u00e7\u00e3o de<br>pautas. No ano seguinte, Gl\u00f3ria Maria estreava como rep\u00f3rter cobrindo a trag\u00e9dia da<br>queda do Elevado Paulo Frontin, na cidade do Rio de Janeiro.<br>Gloria Maria foi a personifica\u00e7\u00e3o cl\u00e1ssica da reportagem jornal\u00edstica, aquela feita no<br>calor dos acontecimentos, da presen\u00e7a do jornalista na rua conversando com as<br>pessoas. Transitou entre coberturas locais do jornalismo regional da Globo para<br>mat\u00e9rias internacionais, como a posse de Jimmy Carter como presidente dos Estados<br>Unidos em 1977, entrevistas com personalidades como Michael Jackson, Madonna,<br>Leonardo Di Caprio, Freddie Mercury entre outros. Ainda fez a cobertura da Guerra<br>das Malvinas em 1982 e participou de coberturas esportivas, como Copas do Mundo e<br>Jogos Ol\u00edmpicos.<br>Destaque-se para a sua presen\u00e7a em reportagens a lugares ex\u00f3ticos, exibidas no<br>programa Fant\u00e1stico (onde chegou a ser apresentadora) e Globo Rep\u00f3rter, saindo<br>totalmente do modelo do jornalista burocrata de gabinete cuja interpreta\u00e7\u00e3o da<br>realidade se resume apenas pela curadoria de redes sociais. \u00c9 a realiza\u00e7\u00e3o do que o<br>escritor colombiano Gabriel Garcia Marquez defendia de jornalismo: uma rela\u00e7\u00e3o<br>desencarnada com a realidade.<br>Esta presen\u00e7a marcante de Gloria Maria no tecer hist\u00f3rias deixava a marca de uma<br>mulher negra que se afirmava fortemente. Dizia ela que sua apar\u00eancia era<br>determinada pela sua vontade (por isto, na trajet\u00f3ria de Gloria Maria, v\u00ea-se ela usando<br>v\u00e1rios tipos de cabelos, inclusive o blackpower) o que na \u00e9poca em que estava no auge<br>da sua carreira era uma afirma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica da identidade de mulher negra.<br>Alguns cobram de Gloria Maria um posicionamento expl\u00edcito de compromisso de<br>combate ao racismo. Mas, assim como Pel\u00e9, que tamb\u00e9m infelizmente nos deixou com<br>a marca de atleta do s\u00e9culo e o maior jogador da hist\u00f3ria do futebol, a presen\u00e7a de<br>Gloria Maria no jornalismo brasileiro por si s\u00f3 j\u00e1 \u00e9 uma afirma\u00e7\u00e3o de compromisso. Da<br>mesma forma que Pel\u00e9 imprimiu a marca negra no futebol brasileiro, Gloria Maria<br>marcou a presen\u00e7a da mulher negra no jornalismo brasileiro ainda hegemonizado por<br>homens brancos \u2013 mas que, querendo ou n\u00e3o, tem que reverenciar esta grande<br>jornalista.<br>Valeu, Gloria!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dennis de Oliveira A jornalista Gloria Maria, da Rede Globo, faleceu em 2 de fevereiro (dia de Iemanj\u00e1)deste ano aos<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":4749,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"colormag_page_container_layout":"default_layout","colormag_page_sidebar_layout":"default_layout","footnotes":""},"categories":[192],"tags":[],"class_list":["post-4746","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-notas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/cje.eca.usp.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/4746","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/cje.eca.usp.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/cje.eca.usp.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cje.eca.usp.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cje.eca.usp.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=4746"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/cje.eca.usp.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/4746\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4750,"href":"https:\/\/cje.eca.usp.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/4746\/revisions\/4750"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cje.eca.usp.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/4749"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/cje.eca.usp.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=4746"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/cje.eca.usp.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=4746"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/cje.eca.usp.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=4746"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}