{"id":4195,"date":"2022-07-08T16:31:04","date_gmt":"2022-07-08T19:31:04","guid":{"rendered":"http:\/\/www.usp.br\/cje\/?p=4195"},"modified":"2022-07-08T16:31:06","modified_gmt":"2022-07-08T19:31:06","slug":"o-caso-klara-castanho-um-exemplo-da-decadencia-do-esclarecimento-em-tempos-de-midias-sociais-e-crencas-obtusas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cje.eca.usp.br\/?p=4195","title":{"rendered":"O caso Klara Castanho, um exemplo da decad\u00eancia do esclarecimento em tempos de m\u00eddias sociais e cren\u00e7as obtusas"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por Dennis de Oliveira e Vitor Blotta, professores da Escola de Comunica\u00e7\u00f5es e Artes (ECA) da USP<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\"><li>Post category:<a href=\"https:\/\/jornal.usp.br\/editorias\/artigos\/\">Artigos<\/a><\/li><li><a href=\"https:\/\/jornal.usp.br\/?p=536335\">https:\/\/jornal.usp.br\/?p=536335<\/a><\/li><\/ul>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00a0\u00a0Publicado: 05\/07\/2022<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:50px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No dia 25 de junho, a atriz Klara Castanho divulgou uma carta p\u00fablica nas redes sociais informando que havia sofrido um estupro tempos atr\u00e1s e que, traumatizada, n\u00e3o denunciara o crime. Soube tardiamente que estava gr\u00e1vida e decidiu dar \u00e0 luz ao beb\u00ea, mas o entregou \u00e0 ado\u00e7\u00e3o. Mas essa hist\u00f3ria n\u00e3o veio a p\u00fablico por vontade pr\u00f3pria da atriz, que havia preferido mant\u00ea-la no \u00e2mbito privado, mas sim porque ela se sentiu obrigada a se posicionar diante de uma s\u00e9rie de informa\u00e7\u00f5es divulgadas pelo jornalista Leo Dias em uma entrevista a um programa de televis\u00e3o, e em seguida no portal Metr\u00f3pole, com o refor\u00e7o da youtuber Antonia Fontenelle. Esse caso levanta uma s\u00e9rie de problemas em torno da \u00e9tica do jornalismo, da ind\u00fastria das celebridades e do neg\u00f3cio das m\u00eddias sociais que gostar\u00edamos de problematizar aqui.<br>Um primeiro problema \u00e9 a relev\u00e2ncia p\u00fablica da informa\u00e7\u00e3o. As perguntas que devemos fazer s\u00e3o: \u00e9 de interesse p\u00fablico discutir as formas legais de interrup\u00e7\u00e3o da gravidez, e as melhores condutas em casos de gravidez decorrente de estupro? Sim. \u00c9 de interesse p\u00fablico o caso espec\u00edfico de uma mulher que, engravidando ap\u00f3s sofrer um estupro, decide fazer um aborto legal ou entregar legalmente o beb\u00ea a quem deu \u00e0 luz para ado\u00e7\u00e3o? N\u00e3o. Por isso mesmo existe o segredo de justi\u00e7a, o sigilo m\u00e9dico e o sigilo de fonte, institutos pouco respeitados em nossa sociedade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ocorre que, em tempos de ind\u00fastria das celebridades, \u201cind\u00fastria de fofocas\u201d e de \u201ccolunismo social\u201d, potencializados pelas m\u00eddias digitais, prevalece a posi\u00e7\u00e3o de que interesse p\u00fablico e \u201ccuriosidade do p\u00fablico\u201d sobre a vida privada de celebridades s\u00e3o a mesma coisa. N\u00e3o s\u00e3o. Interesse p\u00fablico diz respeito a informa\u00e7\u00f5es que afetam a vida da totalidade ou maioria das pessoas, a direitos fundamentais, \u00e0 ordem, \u00e0 sa\u00fade e \u00e0 moral p\u00fablicas. Reconhecemos que as separa\u00e7\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o claras, e que corremos o risco de silenciar o interesse p\u00fablico sobre aquilo que \u00e9 \u201cpessoal\u201d. O que \u00e9 claro \u00e9 que a audi\u00eancia n\u00e3o deve ser a medida mais importante da avalia\u00e7\u00e3o sobre o interesse p\u00fablico ou jornal\u00edstico de uma informa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O segundo elemento \u00e9 que os dois diretamente envolvidos na divulga\u00e7\u00e3o \u2013 Leo Dias e Antonia Fontenelle \u2013 tentaram se eximir de qualquer culpa porque \u201cn\u00e3o divulgaram o nome da atriz\u201d, embora os ind\u00edcios apresentados possibilitassem a quem estivesse mergulhado nesse universo das celebridades descobrir que era Klara Castanho. Ora, o C\u00f3digo de \u00c9tica dos Jornalistas Brasileiros \u00e9 claro ao determinar que o jornalista n\u00e3o pode \u201cexpor pessoas amea\u00e7adas, exploradas ou sob risco de vida, sendo vedada a sua identifica\u00e7\u00e3o, mesmo que parcial, pela voz, tra\u00e7os f\u00edsicos, indica\u00e7\u00e3o de locais de trabalho ou resid\u00eancia, ou quaisquer outros sinais;\u201d (artigo 7o, IV). Os pedidos de desculpas de Leo Dias e do site Metr\u00f3poles s\u00e3o louv\u00e1veis, mas tardios. Os danos m\u00faltiplos j\u00e1 ocorreram, tanto que a Comiss\u00e3o de \u00c9tica da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Imprensa emitiu nota condenando o caso, e a Federa\u00e7\u00e3o Nacional dos Jornalistas informou que vai encaminhar den\u00fancia contra Leo Dias ao Sindicato de Jornalistas Profissionais do Distrito Federal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em terceiro lugar, ap\u00f3s se manifestar num tom de criminaliza\u00e7\u00e3o da atriz por ter encaminhado a crian\u00e7a para ado\u00e7\u00e3o, um ato leg\u00edtimo e previsto em lei, e que n\u00e3o tem nada a ver com a acusa\u00e7\u00e3o de \u201cabandono de incapaz\u201d, Antonia Fontanelle ainda defendeu uma inconstitucional \u201cpena de morte para estupradores\u201d em um dos seus v\u00eddeos, tentando desviar do assunto e se colocar fortemente contra a viol\u00eancia sexual.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O professor Rog\u00e9rio Christofoletti fala que o jornalismo \u00e9 uma narrativa que nos conecta a uma dimens\u00e3o de espa\u00e7o-tempo. Esta afirma\u00e7\u00e3o se articula diretamente com a defini\u00e7\u00e3o conceitual de jornalismo feita por Adelmo Genro Filho de ser uma a\u00e7\u00e3o cultural t\u00edpica da sociabilidade, criada pelos arranjos institucionais do capitalismo liberal, que possibilita a apropria\u00e7\u00e3o do conhecimento da realidade a partir da singularidade dos fatos. Uma das no\u00e7\u00f5es de cidadania da\u00ed decorrentes se d\u00e1 por meio da sensa\u00e7\u00e3o por parte do sujeito de estar participando da constru\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria em cada fragmento da cotidianidade. Se o conhecimento produzido pelo jornalismo n\u00e3o \u00e9 o da universalidade da ci\u00eancia nem o da particularidade da arte, ele transita entre ambos e possibilita este tipo de conex\u00e3o com a dimens\u00e3o do espa\u00e7o-tempo pari passu \u00e0 sua constru\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas n\u00e3o podemos esquecer que essa constru\u00e7\u00e3o de narrativa passa necessariamente por nexos filos\u00f3ficos da \u00e9tica: s\u00e3o perguntas como \u201co que \u00e9 melhor divulgar, levando em conta quem n\u00f3s somos e quem queremos ser enquanto sociedade?\u201d que devem guiar essa articula\u00e7\u00e3o de fragmentos do cotidiano a construir essa conex\u00e3o com a dimens\u00e3o de espa\u00e7o-tempo. N\u00e3o se trata somente de atentar para a veracidade ou o respeito a normas jur\u00eddicas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tal discuss\u00e3o ganha ainda mais relev\u00e2ncia com a atual crise do jornalismo, resultado da perda do monop\u00f3lio da media\u00e7\u00e3o jornal\u00edstica que possibilita essa conex\u00e3o com a singularidade. As tecnologias digitais de informa\u00e7\u00e3o e comunica\u00e7\u00e3o (TICs) possibilitam que qualquer sujeito conectado \u00e0s plataformas digitais de rede possa disseminar informa\u00e7\u00f5es. Ou seja, n\u00e3o importa se se \u00e9 jornalista ou n\u00e3o. Nossa responsabilidade com a informa\u00e7\u00e3o \u00e9 proporcional ao nosso \u201cpoder de m\u00eddia\u201d, ou o alcance e visibilidade de nossas manifesta\u00e7\u00f5es. Ao mesmo tempo, a press\u00e3o sobre o jornalismo aumenta ainda mais pelo fato dessa atividade de natureza p\u00fablica ser realizada, principalmente, por estruturas privadas e mercadol\u00f3gicas. Essa perda de monop\u00f3lio significa de imediato uma queda no faturamento das empresas \u2013 e, diante disso, a op\u00e7\u00e3o mais sedutora e imediata \u00e9 justamente repetir as mesmas l\u00f3gicas das informa\u00e7\u00f5es veiculadas pelas TICs sem esta media\u00e7\u00e3o jornal\u00edstica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nesse contexto, jornalistas profissionais s\u00e3o eclipsados pelos influenciadores digitais, que operam pela busca de \u201clikes\u201d, de \u201clacra\u00e7\u00e3o nas redes\u201d, de \u201cviews\u201d e toda sorte de repercuss\u00e3o digital. Por isso, o potencial de monetiza\u00e7\u00e3o que transforma esses influenciadores em \u201cempreendedores de narrativas informacionais\u201d se apresenta como uma possibilidade de novo modelo de neg\u00f3cios para as empresas de comunica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Al\u00e9m disso, esse ambiente informativo favorece narrativas extremistas, o que contribuiu para o avan\u00e7o da extrema direita na esfera pol\u00edtica. Arroubos machistas e moralistas garantem de cara uma certa repercuss\u00e3o. Mas novamente a pergunta que fica \u00e9: qual a relev\u00e2ncia p\u00fablica de um epis\u00f3dio que aconteceu na intimidade e na privacidade de Klara Castanho? N\u00e3o se trata apenas de respeitar a decis\u00e3o soberana da atriz de n\u00e3o tornar esse fato p\u00fablico, mas que esse epis\u00f3dio na sua singularidade n\u00e3o \u00e9 de interesse p\u00fablico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Aqui retomamos novamente as reflex\u00f5es de Adelmo Genro Filho quando fala que o sensacionalismo no jornalismo ocorre quando ele se fecha na singularidade, e isso ocorre tamb\u00e9m muitas vezes na imprensa tradicional. Toda a argumenta\u00e7\u00e3o de Fontenelle, por exemplo, fica presa ao epis\u00f3dio e \u00e0 personagem Klara Castanho. O drama da atriz, por exemplo, n\u00e3o \u00e9 em nenhum momento ampliado para se conectar a outras singularidades como os traumas vividos por mulheres v\u00edtimas de crimes sexuais. \u00c9 esse mesmo discurso particularista e moralista que muitas vezes impede mulheres estupradas de procederem ao aborto previsto em lei (como quase aconteceu com uma menina de 10 anos, v\u00edtima de estupro em Santa Catarina, quando uma ju\u00edza tentou impedir que o procedimento fosse feito), ou ainda o direito das mulheres n\u00e3o quererem ser m\u00e3es e encaminharem crian\u00e7as para ado\u00e7\u00e3o. N\u00e3o, o caso ficou circunscrito a uma avalia\u00e7\u00e3o do comportamento pessoal da atriz como se os disseminadores da informa\u00e7\u00e3o chamassem o p\u00fablico para serem inquisidores.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O resultado disso \u00e9 uma disputa personalista e manique\u00edsta de quem \u00e9 algoz, v\u00edtima, culpado ou inocente. Debates com um m\u00ednimo de racionalidade, que s\u00e3o a ess\u00eancia da esfera p\u00fablica pol\u00edtica, passam ao largo disso. A era do esclarecimento foi obliterada em tempos de m\u00eddias sociais por cren\u00e7as obtusas. Perdem as mulheres, perde o jornalismo, perde a democracia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Dennis de Oliveira e Vitor Blotta, professores da Escola de Comunica\u00e7\u00f5es e Artes (ECA) da USP Post category:Artigos https:\/\/jornal.usp.br\/?p=536335<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"colormag_page_container_layout":"default_layout","colormag_page_sidebar_layout":"default_layout","footnotes":""},"categories":[154,3],"tags":[],"class_list":["post-4195","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-jornal-da-usp","category-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/cje.eca.usp.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/4195","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/cje.eca.usp.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/cje.eca.usp.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cje.eca.usp.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cje.eca.usp.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=4195"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/cje.eca.usp.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/4195\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4196,"href":"https:\/\/cje.eca.usp.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/4195\/revisions\/4196"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/cje.eca.usp.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=4195"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/cje.eca.usp.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=4195"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/cje.eca.usp.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=4195"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}