{"id":1070,"date":"2017-12-04T12:15:44","date_gmt":"2017-12-04T14:15:44","guid":{"rendered":"http:\/\/www.usp.br\/cje\/?p=1070"},"modified":"2022-06-02T13:31:05","modified_gmt":"2022-06-02T16:31:05","slug":"a-falencia-do-livro-didatico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cje.eca.usp.br\/?p=1070","title":{"rendered":"A fal\u00eancia do livro did\u00e1tico"},"content":{"rendered":"<h6>Marisa Midori Deaecto \u00e9 historiadora, Prof\u00aa. da Escola de Comunica\u00e7\u00f5es e Artes (ECA). Dr\u00aa. Honoris Causa da Univ. Eger, Hungria<\/h6>\n<p><a href=\"http:\/\/jornal.usp.br\/artigos\/a-falencia-do-livro-didatico\/\">Publicado no Jornal da USP em 01\/12\/2017<\/a><\/p>\n<p>Foto: Marcos Santos\/USP Imagens<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u201cA fam\u00edlia Ribeiro vive em um s\u00edtio, onde planta cana-de-a\u00e7\u00facar.<\/p>\n<p>Toda a produ\u00e7\u00e3o de cana-de-a\u00e7\u00facar do s\u00edtio dessa fam\u00edlia \u00e9 vendida para uma f\u00e1brica da cidade.<\/p>\n<p>Na f\u00e1brica, a cana-de-a\u00e7\u00facar \u00e9 transformada em a\u00e7\u00facar.<\/p>\n<p>O a\u00e7\u00facar consumido na casa da fam\u00edlia Ribeiro \u00e9 fabricado, na cidade, com a cana-de-a\u00e7\u00facar plantada no pr\u00f3prio s\u00edtio da fam\u00edlia Ribeiro\u201d.<\/p>\n<p>(<em>Buriti \u2013 Geografia, 3.\u00a0<\/em>Organizadora: Editora Moderna. Obra coletiva, concebida, desenvolvida e produzida pela Editora Moderna. S\u00e3o Paulo: Editora Moderna, 2013, p. 105.)<\/p>\n<p><strong>Triste paisagem<\/strong><\/p>\n<p>Daqui a alguns anos com um pouco mais de sorte e se o livro did\u00e1tico assim o permitir, a mesma crian\u00e7a que passou por esse cap\u00edtulo ser\u00e1 introduzida em uma outra realidade socioecon\u00f4mica: a da grande propriedade agroexportadora.<\/p>\n<p>Sabemos que o plantio da cana e a produ\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00facar constituem, desde suas origens no Brasil colonial, um complexo fundado na casa grande, na senzala, no latif\u00fandio e no engenho. A chegada da usina e, hoje, da grande ind\u00fastria a\u00e7ucareira n\u00e3o alterou estruturalmente essa unidade. Leitores de Jos\u00e9 Lins do Rego, particularmente do \u201cciclo da cana-de-a\u00e7\u00facar\u201d, v\u00e3o se lembrar de que os romances se iniciam no engenho e terminam quando este se encontra de \u201cfogo morto\u201d. O autor retrata a decad\u00eancia do Nordeste a\u00e7ucareiro, nos anos de 1930, mas n\u00e3o a mudan\u00e7a da estrutura fundi\u00e1ria dessa regi\u00e3o. Hoje o estado de S\u00e3o Paulo desponta como a grande pot\u00eancia brasileira na produ\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00facar e \u00e1lcool. No entanto, as tecnologias n\u00e3o romperam com um sistema de produ\u00e7\u00e3o fundado na tr\u00edade: monocultura em larga extens\u00e3o \u2013 ou seja, baseada no latif\u00fandio; usina transformadora de mat\u00e9ria-prima em produto industrializado; e m\u00e3o-de-obra assalariada.<\/p>\n<p>Nessa triste paisagem, o s\u00edtio da fam\u00edlia Ribeiro, tal como descrito na cita\u00e7\u00e3o anterior, n\u00e3o passaria de uma quimera. Se inserido em um debate mais amplo sobre a estrutura fundi\u00e1ria e a explora\u00e7\u00e3o do trabalhador rural, esse modelo bem se apresentaria como uma solu\u00e7\u00e3o para o problema da desigualdade no Brasil.<\/p>\n<blockquote><p>Sabemos que o plantio da cana e a produ\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00facar constituem, desde suas origens no Brasil colonial, um complexo fundado na casa grande, na senzala, no latif\u00fandio e no engenho. A chegada da usina e, hoje, da grande ind\u00fastria a\u00e7ucareira n\u00e3o alterou estruturalmente essa unidade<\/p><\/blockquote>\n<p>No entanto, o cap\u00edtulo trata da rela\u00e7\u00e3o entre campo e cidade! Para quem visita Ribeir\u00e3o Preto, a paisagem diz mais do que palavras. Nessa regi\u00e3o, estradas simples s\u00e3o tomadas por caminh\u00f5es pesados, abarrotados de cana-de-a\u00e7\u00facar. O tr\u00e1fego \u00e9 lento, pois esses ve\u00edculos devem suportar duas ou at\u00e9 tr\u00eas carrocerias, donde os nomes \u201cRomeu e Julieta\u201d e \u201ctreminh\u00e3o\u201d. Ora, seria inimagin\u00e1vel pensar que esses caminh\u00f5es pudessem adentrar nas rodovias para levar a cana \u00e0 ind\u00fastria situada na cidade. N\u00e3o, eles trafegam em estradas vicinais, pois o transporte consiste em levar a cana da lavoura, a qual ocupa quil\u00f4metros a perder de vista, at\u00e9 a usina. N\u00e3o \u00e9 o s\u00f3 o fator log\u00edstico que justifica essa composi\u00e7\u00e3o. Mas n\u00e3o \u00e9 esse ponto.<\/p>\n<p><strong>Mercado Editorial x Escola<\/strong><\/p>\n<p>Livros did\u00e1ticos movimentam a por\u00e7\u00e3o mais expressiva da ind\u00fastria editorial brasileira, em exemplares produzidos e em capital gerado. Segundo os dados apurados pela FIPE, em 2016 o subsetor de did\u00e1ticos foi respons\u00e1vel pela impress\u00e3o ou reimpress\u00e3o de 12.065 t\u00edtulos, ou o equivalente a 220.458.397 exemplares. Em t\u00edtulos, ele fica abaixo dos livros cient\u00edficos, t\u00e9cnicos e profissionais (13.719) e de \u201cobras gerais\u201d (19.370), que abarcam um universo muito abrangente, excetuando apenas os religiosos (6.665). Por\u00e9m, se considerarmos as tiragens, ou seja, os exemplares impressos, conclu\u00edmos que a produ\u00e7\u00e3o anotada no subsetor de did\u00e1ticos supera a soma dos outros tr\u00eas subsetores (obras gerais + religiosos + CTP = 206.729.696). \u00c9 preciso considerar, ainda, seu potencial de mercado, pois as vendas se destinam \u00e0s escolas p\u00fablicas (governo) e ao ensino privado. Diante dessas cifras, n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil concluir sobre sua for\u00e7a mobilizadora na ind\u00fastria editorial e gr\u00e1fica do Brasil.<\/p>\n<p>Isso n\u00e3o se d\u00e1 sem consequ\u00eancias. Cumpre ressaltar que os livros did\u00e1ticos criaram sua pr\u00f3pria rotina no mercado e no universo escolar.<\/p>\n<p>As rela\u00e7\u00f5es contratuais que demarcam a figura do autor e a do editor, seguindo um modelo multissecular de garantia do\u00a0<em>copyright<\/em>, foram simplesmente abolidas em fun\u00e7\u00e3o da ideia de um novo projeto coletivo. Tal perspectiva podou a forma\u00e7\u00e3o de novas gera\u00e7\u00f5es de autores surgidas na sala de aula ou nos quadros universit\u00e1rios, para citar alguns nomes que marcaram \u00e9poca, pensemos em S\u00e9rgio Buarque de Holanda, Caio Prado Jr., Massaud Mois\u00e9s, Jos\u00e9 Jobson Arruda, Carlos Guilherme Mota, Leo Huberman, Melhem Adas, Jos\u00e9 Dantas, \u2013 sem contar autores n\u00e3o menos cl\u00e1ssicos nas \u00e1reas de Matem\u00e1tica, Biologia, F\u00edsica e Qu\u00edmica \u2013 foram substitu\u00eddos por inscri\u00e7\u00f5es aparentemente democr\u00e1ticas, a exemplo do livro em quest\u00e3o: \u201cObra coletiva concebida, desenvolvida e produzida pela editora Moderna\u201d. Um \u00fanico nome impera, soberano e onisciente na folha de rosto: o da \u201ceditora executiva\u201d. Ora,\u00a0<em>publishers<\/em>n\u00e3o escrevem livros. Editores tamb\u00e9m n\u00e3o os escrevem.<\/p>\n<blockquote><p>As rela\u00e7\u00f5es contratuais que demarcam a figura do autor e a do editor, seguindo um modelo multissecular de garantia do\u00a0<em>copyright<\/em>, foram simplesmente abolidas em fun\u00e7\u00e3o da ideia de um novo projeto coletivo<\/p><\/blockquote>\n<p>Por tr\u00e1s dessa aparente democratiza\u00e7\u00e3o que dilui a figura do autor em nome de uma coletividade, sen\u00e3o, de um projeto pedag\u00f3gico, todo o sistema educacional \u00e9 colocado em xeque. Afinal de contas, s\u00e3o as escolas que desenvolvem projetos pedag\u00f3gicos, n\u00e3o as editoras. Da mesma forma que s\u00e3o os autores que prop\u00f5em metodologias de ensino, expressam suas vis\u00f5es de mundo, elaboram sistemas interpretativos. E, finalmente, cabe ao professor desenvolver seu pr\u00f3prio senso cr\u00edtico e decidir, pela raz\u00e3o, sobre o melhor livro a ser adotado.<\/p>\n<p><strong>A culpa \u00e9 de quem?<\/strong><\/p>\n<p>Ao engajar a comunidade escolar com pacotes completos de ensino, professores e alunos se tornam t\u00edteres de um sistema educacional fadado ao malogro. Coordenadores pedag\u00f3gicos, sobretudo no sistema privado, desempenham o papel de gestores. Professores s\u00e3o engessados em m\u00e9todos e cursos de complementa\u00e7\u00e3o profissional que se resumem a lhes ensinar como empregar o livro did\u00e1tico em sala de aula. Alunos s\u00e3o conduzidos a deglutir conte\u00fados l\u00fadicos, coloridos, mas cujos equ\u00edvocos podem comprometer, no presente e no futuro, suas formas de entendimento do mundo e da ci\u00eancia. Enquanto isso, a forma\u00e7\u00e3o docente \u00e9 acachapada por cursos r\u00e1pidos de licenciatura que mais se assemelham ao imenso moedor de carne evocado nos anos 80 por Pink Floyd. Mas a culpa, nesse caso, n\u00e3o \u00e9 dos professores!<\/p>\n<p>A culpa \u00e9 de uma m\u00e1quina de produzir informa\u00e7\u00f5es que n\u00e3o honra o valor do conhecimento gerado e reproduzido nas universidades brasileiras. N\u00e3o falemos sobre o desrespeito ao profissional formado nas universidades, em suas diferentes \u00e1reas. A culpa \u00e9 de um sistema de ensino articulado com o mercado editorial que n\u00e3o deixa margens para a express\u00e3o e a intera\u00e7\u00e3o de professores e alunos na sala de aula. A culpa \u00e9 dos pais que n\u00e3o disp\u00f5em de tempo para refletir sobre os conte\u00fados que s\u00e3o passados aos seus filhos.<\/p>\n<p>Diante de uma paisagem triste e de dif\u00edcil solu\u00e7\u00e3o, apenas a mobiliza\u00e7\u00e3o de setores educacionais, mas, sobretudo, da comunidade escolar como um todo (pais, alunos, professores, coordenadores pedag\u00f3gicos) ser\u00e1 capaz de decretar a fal\u00eancia desse modelo de livro did\u00e1tico que desconsidera o direito de propriedade e o dever de responsabilidade intelectual. A fal\u00eancia moral de um projeto que apresenta impunemente conte\u00fados duvidosos e que coloca em segundo plano a capacidade de reflex\u00e3o de professores e alunos, esta certamente j\u00e1 foi decretada.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Marisa Midori Deaecto \u00e9 historiadora, Prof\u00aa. da Escola de Comunica\u00e7\u00f5es e Artes (ECA). Dr\u00aa. Honoris Causa da Univ. Eger, Hungria<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1071,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"colormag_page_container_layout":"default_layout","colormag_page_sidebar_layout":"default_layout","footnotes":""},"categories":[5],"tags":[12],"class_list":["post-1070","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-livros","tag-editoracao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/cje.eca.usp.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1070","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/cje.eca.usp.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/cje.eca.usp.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cje.eca.usp.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cje.eca.usp.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1070"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/cje.eca.usp.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1070\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1075,"href":"https:\/\/cje.eca.usp.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1070\/revisions\/1075"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cje.eca.usp.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/1071"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/cje.eca.usp.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1070"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/cje.eca.usp.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1070"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/cje.eca.usp.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=1070"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}